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The less I know the better

17.03.2020 Vítor Mário Ribeiro, CFA

Nota inicial: artigo originalmente escrito em março de 2017 e revisto agora tendo em consideração a situação atual.

É habitual ouvir as pessoas dizerem que não investem em produtos financeiros porque não têm tempo para acompanhar o mercado.

Mas será assim tão importante ter tempo para acompanhar? Neste mundo de informação e redes sociais será que ter tempo é a variável mais importante desta equação? Teremos mesmo de saber em tempo real o que se passa?

Num plano financeiro de longo prazo o tempo é de facto um dos fatores mais importantes tendo em conta o(s) horizonte(s) de investimento que definimos para o nosso plano. Mas duvido que o ter tempo para acompanhar esteja relacionado com este plano. Está, sim, relacionado com o medo, com a informação negativa, com o sentimento de perda, com a falta de confiança e até de conhecimento.

A ideia que poderemos ter alguma surpresa desagradável no caminho é um sinal de desconforto que nos impede de tomar as melhores decisões.

É este um dos motivos que leva um investidor a delegar essa difícil tarefa de decidir noutra pessoa. Mas a forma como delega é também intrigante pois é comum ouvirmos esta afirmação dita com toda a confiança: “faça como se fosse para si!”

Esta afirmação é perigosa, arriscada e imprudente. Somos todos diferentes e na forma de poupar e investir somos mesmo muito diferentes.

O valor da informação é um facto inegável mas o excesso de informação e um certo circo mediático cria em nós o sentimento de que dia após dia estamos pior, que não podemos confiar em ninguém e que o melhor é levantar o dinheiro do banco ou mudar de intermediário financeiro. Lemos o dia-a-dia com enviesamentos vários provocados por incapacidades nossas e eventos mais ou menos orientados para o medo e até para o pânico.

Se um investidor inseguro e lapsos cognitivos revelados por incapacidade em analisar e processar informação tivesse uma determinada posição em ativos financeiros a 31 de outubro de 2018 e fosse consultar a sua posição a 31 de dezembro de 2018 certamente teria um choque. Nessa altura, e dependendo do tipo de personalidade e comportamento, o investidor teria tomado a decisão de vender parcialmente ou totalmente os ativos para, segundo ele, evitar maiores perdas.

Contudo, se essa mesma pessoa não tivesse consultado a sua posição a 31 de dezembro mas sim a 31 de outubro (1 ano depois), a sensação seria certamente diferente mas para melhor. Imaginando que teria investido no mercado uma posição no índice MSCI World EUR, o resultado seria positivo, conforme se pode verificar no gráfico abaixo. No gráfico estão assinalados alguns dos eventos ocorridos nos últimos anos e que, certamente, criaram pontos de stress e desconfiança.

Nota: Clicar no gráfico para o ver em ponto grande

É claro que nem sempre é assim. Cada crise económica e financeira é diferente da anterior e sempre com grandes doses de imprevisibilidade. Mas este exemplo básico e concreto serve para relevarmos o outro lado, o lado importante de uma alocação correta de ativos e a necessidade de delinearmos uma estratégia e uma política de investimento.

Não sabemos ainda o real impacto deste choque viral na economia mundial. Sabemos que é grande, real e desconcertante. Os danos são incontornáveis e mudará as nossas vidas. Mas estou certo que em breve será mais um ponto de stress na nossa caminhada. A vida não é linear. Os mercados financeiros e a economia também não são.

Uma das principais funções de um consultor para investimento é evitar decisões precipitadas. A informação tem de estar disponível, é um valor sagrado, mas as nossas decisões devem ser sempre pensadas, ponderadas e consentâneas com os nossos objetivos, preferências e restrições. Não apenas com base em informação em tempo real mas com base em princípios e políticas previamente definidas. O consultor para investimento deve ser o garante desses princípios.

Às vezes, em determinados contextos e momentos de ruído, temos de reconhecer que há valor no desabafo: the less I know the better!

Vítor Mário Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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