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Love over gold

17.07.2020 Vítor Mário Ribeiro, CFA

O ouro é aquele tipo de ativo que não gera indiferença, tem qualquer coisa de alucinante. É a moeda oficiosa do mundo. É o grande ativo de refúgio e reserva de valor. É aceite e valorizado. Tem múltiplas aplicabilidades. E tem uma relação de amor e ódio com os seus admiradores. É milenar!

Sendo um dos ativos com maior volatilidade, devemos tentar compreender o valor de segurança que transmite, gerando uma espécie de contradição comportamental.

Não permite um fluxo estável de rendimento (não produz dividendos ou cupões de juros), não tem prazo determinável, não sabemos as reservas reais de ouro. Então por que razão investimos em ouro?

Refúgio, reserva de valor, conforto e diversificação são algumas das respostas a explorar a seguir.

Relação entre ouro e taxas de juro reais

Com o ouro a aproximar-se do valor de há 8 anos e do máximo atingido em setembro de 2011, é interessante relacionar esta subida com as taxas de juro reais.

De uma maneira simples, podemos dizer que a taxa de juro real é obtida subtraindo a taxa de inflação à taxa de juro nominal.

O gráfico abaixo apresenta a relação entre o preço do ouro e a taxa de juro real a 10 anos das obrigações do tesouro americanas. Como se pode ver, com a escala invertida nas taxas de juro, os movimentos de ambos os ativos são muito similares.

Apesar da similaridade das linhas do gráfico, analisando a correlação dos retornos de ambos os ativos, concluímos que esta é negligenciável.

As taxas de juro estão em queda há algumas décadas e próximas de zero ou até negativas em muitas economias. Nos EUA, em termos reais, estiveram negativas entre 2011 e 2013 que coincidiu com os máximos do ouro e com um pico na taxa de inflação, que em 2011 passou os 3%.

Há então (pelo menos) um fator comum nesta análise: a inflação. A expectativa de inflação, por sua vez estará também influenciada pela expansão dos balanços dos bancos centrais que, como temos reparado, tem sido brutal. Esta simbiose, aliada à degradaçao acentuada do valor da moeda, parece continuar a dar força ao ouro.

Fonte: FRED

No gráfico acima temos a evolução do balanço da FED e a velocidade de circulação da moeda (M2V), que é um rácio que relaciona o PIB e a base monetária, ou seja, o número de vezes que a moeda é transacionada de uma entidade para outra.

Como já referimos, a base monetária tem vindo a subir mas a velocidade de circulação não está a aumentar, pelo contrário. Esta discrepância tem provocado opiniões contrárias sobre a relação entre inflação, base monetária e velocidade de circulação. A verdade é que os dados dos últimos anos mostram que o aumento da base monetária parece não estar a provocar inflação. A base monetária, ou moeda em circulação, tem aumentado mais rapidamente do que o PIB, o que é visível pelo rácio M2V.

Ou seja, com o número de transações de bens e serviços em queda, poderemos formar expectativas razoáveis de uma desaceleração económica duradoura e de inflação baixa ou mesmo deflação?

Classes de ativos como as obrigações, estão sedadas pelo trabalho dos bancos centrais e com baixa volatilidade em perspetiva. As oportunidades de retorno nestas condições são cada vez mais escassas. Procurar alternativas de retorno e formas de diversificar a carteira podem ser duas tarefas bem difíceis nestes tempos.

No meio de todas estas incertezas, e até contradições e choques macroeconómicas entre diferentes teorias, o ouro tem sobressaido e reforçado pelas especificidades que já fomos descrevendo. É aliciante o retorno histórico (repito, histórico) mas, o que nos parece estar a fazer a diferença na tomada de decisão de investir em ouro, é a sua capacidade de diversificação numa carteira e as suas características reais com elevada liquidez. Transmitem um certo sentimento de conforto a um investidor preocupado.

Mas nunca é demais alertar para a necessidade de avaliação e disciplina. Tomar decisões à revelia de uma política de investimento personalizada e orientada para os objetivos e restrições de cada investidor tem sempre consequências. E nesta história, às vezes o sentimento é mais forte que a razão, love over gold... 

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Vítor Mário Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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