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Inflação ou deflação?

26.05.2020 Vítor Mário Ribeiro, CFA

Estamos no meio de uma crise sem precedentes e um dos assuntos que mais se fala é inflação. Teremos inflação ou deflação? Deixo a seguir alguns pensamentos sobre o assunto não necessáriamente convencionais ou até racionais.

Há vários argumentos que justificam uma e outra abordagem. Até pode acontecer num primeiro momento termos um cenário e depois outro.

Do lado do cenário inflacionsta temos a abordagem extraordinária dos bancos centrais. Nos últimos meses anunciaram estímulos sem precedentes na forma de criação de moeda e expansão do balanço. O balanço da FED já atingiu os 7B$ e o do BCE já ultrapassou os 5 biliões (recordar que biliões Europeus são equivalentes aos triliões Americanos).

Fonte: BCE

Estas abordagens foram, em menor dimensão, experimentadas pós-grande recessão de 2007-2009. Mas, se por um lado se nota uma subida vertiginosa do stock de moeda e por isso legitimas expectativas de receios inflacionistas, a verdade é que o rácio da velocidade de circulação do dinheiro tem vindo a cair de forma consistente nas últimas duas décadas. Ou seja, expectativas de contração económica e de deflação.

Os choques provocados pela dinâmica da oferta e da procura podem também trazer pressões inflacionistas. Por exemplo, a disrupção sentida nos transportes e na produção de alguns bens fruto de uma economia fortemente globalizada pode trazer escassez no curto prazo e por isso uma subida dos preços desses produtos.

E ainda os estímulos fiscais para induzir o consumo e o investimento, ao estilo Keynesiano.

Estas podem ser algumas das razões que nos levam a ter receio de uma forte pressão inflacionista.

Mas há também a outra face da moeda, o lado da pressão deflacionária. Sobretudo por causa da dívida. Os governos vão aumentar de forma dramática os seus défices e as empresas vão aproveitar a flexibilidade dos bancos centrais para emitir mais dívida e as linhas de crédito com garantias estatais para obter liquidez.

O investimento empresarial sofreu uma redução significativa nos últimos meses. A liquidez existente está a ser canalizada para fundo de maneio. A falta de investimento vai repercutir-se mais à frente nos resultados das empesas e na capacidade de continuarem em atividade. 

Este cenário pode levar a uma espiral recessiva com falências de empresas e mesmo de estados, write-offs de dívida, desemprego e uma descida generalizada dos preços dos ativos, produtos e serviços. Esta teoria é conhecida por dívida-deflação (Irving Fisher). Havendo inflação, a dívida, nominal, vai sendo consumida em termos reais. Mas havendo deflação, uma dívida já elevada e até insustentável, torna-se ainda mais problemática.

Fonte: iStock

Também o desemprego poderá trazer uma pressão negativa na inflação via salários (contração dos salários). Aliado ao medo que se vive provocará certamente uma forte redução no consumo.

Aliás, este artigo do Financial Times destaca o aumento da taxa de poupança, com as famílias e os individuos a preparem-se para piores dias. Significa simplesmente adiar consumo e uma expectativa que no futuro os preços estarão mais baixos. Esta expectativa é sentida especialmente no consumo de bens e serviços não essenciais e bens duradouros como carros, imóveis, entre outros.

A evolução dos preços das commodities reflete também esta disrupção entre procura e oferta e a severidade da recessão.

O mercado obrigacionista, muitas vezes reconhecido como um bom indicador do estado da economia, revela os receios em torno da deflação, com yields negativas em muitos países ou próximas de zero, como no caso dos EUA.

No fundo, as taxas de juro de longo prazo podem ser lidas como expectativas dos investidores quanto ao futuro da economia. Mas também devemos ter algum cuidado nesta análise numa altura em que os bancos centrais parecem ter tomado conta da Yield Curve (a curta de rendimento das taxas de juro de obrigações do tesouro nas suas várias maturidades).

Os argumentos aqui referidos são talvez os mais visíveis. Mas o que devemos realçar é a novidade de um cenário como este. Como é referido neste artigo de Trevor Jackson nem os consumidores nem os economistas estão habituados a preocupar-se com a deflação.

O que sabemos é que as teorias económicas e sociais podem estar a ser alvo de uma grande prova de fogo. Para entendermos toda esta dinâmica talvez seja necessário desenvolvermos novas políticas, novos modelos económicos e até novos entendimentos de como se comportam os consumidores e os investidores e até os estados e os bancos centrais. Quem sabe até um novo conceito de moeda ou de estabilização de preços.

O mundo mudou. As teorias económicas e monetárias também poderão ter que mudar!

Vítor Mário Ribeiro, CFA

Vítor é um CFA® charterholder, empreendedor, melómano e com um sonho de construir um verdadeiro ecossistema de investimento e planeamento financeiro ao serviço das famílias e organizações.

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